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  • Requião

Discurso sobre o Tratado de Itaipu

Talvez uma das manifestações mais deploráveis das relações entre Estados e povos, sejam as manifestações imperialistas. O domínio de nações mais fracas, a debilitação de vizinhos para que nunca representem ameaça, nunca sejam competidores, a apropriação de recursos naturais alheios, a submissão mercantil são expressões de políticas que se opõem à própria civilização. Na verdade, as tentações imperialistas são recidivas, recorrências de instintos primitivos que devemos, sempre que se manifestem, sufocar, domar. Em nossas relações com o Paraguai, volta e meia essas tentações exteriorizam-se. Há entre nós uma inclinação, uma tendência de potência imperial em relação ao pequeno país fronteiriço. Mesmo porque o preconceito em relação aos paraguaios e a tudo o que vem do Paraguai, acaba sendo um componente nada desprezível dessas relações. Não quero dizer que manifestações imperiais, que tentações imperialistas reproduzem-se aqui, nas discussões sobre o tratado de Itaipu. Mas devemos estar atentos a elas. Não estamos fazendo nenhuma caridade ao Paraguai, nenhuma doação, nenhuma transferência indevida de recursos. O Estado brasileiro não está sendo perdulário, e muito menos agindo por motivações político-ideológicas. Brasil e Paraguai são parceiros na construção de Itaipu. A hidrelétrica não existiria sem o rio Paraná e o rio é binacional. Não foram apenas recursos brasileiros que construíram a usina. Aliás, nem brasileiros. São internacionais. E o Paraguai paga a sua parte. A revisão de contratos, a readequação de valores, atualização de cálculos são atos normais entre parceiros. Ainda mais quando esse parceiro precisa desenvolver-se, superar o atraso, sacudir-se de uma letargia, de uma pasmaceira, de uma paralisia a que foi submetido por décadas e décadas por uma elite corrupta, cruel, insaciável no acúmulo de privilégios e riquezas. A eleição do presidente Lugo Mendes representa um rompimento. Invertem-se as prioridades do Governo e, mesmo que timidamente, tomam-se iniciativas para a reforma do Estado, para a desprivatização do Estado. É dever humanitário, é dever da solidariedade latino-americana contribuir para a consolidação dessa evolução. A modernização e o desenvolvimento do Paraguai são de nosso interesse. O Mercosul não avança, não se consolida como um forte bloco comercial se dentro dele remanescem diferenças tão acentuadas. Os nossos desequilíbrios afetam todo o bloco. Vejam, por exemplo, os esforços que a Comunidade Européia faz para diminuir o desequilíbrio entre os Estados-membros. Porque não haverá uma Comunidade forte, competitiva, protegida de crises e preparada para os enfrentamentos globais com o pé manco, claudicante de associados pouco desenvolvidos. Não se trata de caridade, de esmola, de cortesia com o chapéu generoso do contribuinte brasileiro. Trata-se de justiça e de solidariedade. Trata-se de compreender que o desenvolvimento do Paraguai é bom para o Brasil. Até mesmo as tão propaladas questões de segurança não serão resolvidas se o nosso vizinho não romper com o subdesenvolvimento, com a pobreza, se não apoiarmos governantes que encarnam a ruptura com o passado. Por fim, manifesto aqui uma preocupação. Ontem, recebi um abaixo-assinado de brasileiros que vivem no Paraguai, os “brasiguaios”. Reclamam de tratamento que recebem no país vizinho e pedem ajuda. É um antigo conflito, que vez e outra exacerba-se. Como brasileiro e como paranaense, mais uma vez peço ao Governo Federal atenção para o problema. Que isso não seja motivo de conflito entre os nossos países. Solidariedade, internacionalismo humanista, visão de futuro, fortalecimento do Mercosul , são pensamentos que devem guiar o nosso voto nesse acordo com o Paraguai.

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