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Discurso sobre alertas do economista Mário Lettiéri

Como já referi em pronunciamento anterior, logo depois da crise financeira mundial, reuni no Paraná, especialistas de todo o mundo para debater o assunto. Hoje, gostaria de destacar a participação do economista italiano Mário Lettieri, ex-ministro de Economia e Finanças no governo de centro-esquerda de Romano Prodi, entre 2006 e 2008. Segundo Lettieri, o primeiro consenso estabelecido pela crise foi a necessidade de se fixar novas regras para o mercado financeiro. No entanto, dizia, seria um grave erro concentrar-se tão-somente nas regras, deixando de lado a premência de se buscar um modelo econômico internacional mais justo, mais equilibrado, que combatesse a pobreza, as desigualdades. O ex-ministro lamentava que temas como o da pobreza houvessem desaparecido dos noticiários, no período pré-crise, abandonados pela imprensa internacional, toda ela deslumbrada com o maravilhoso mundo novo neoliberal.

A crise abria ao mundo uma ocasião especialíssima de mudança, alertava Mário Lettieri. E seria um grave erro desperdiçá-la. Mesmo porque, insistia, não era possível admitir uma volta à situação anterior, que se caracterizava por uma ordem mundial profundamente assimétrica, desarmoniosa, com uma grande faixa de pobreza, com a depredação do meio ambiente, com contínuos e prolongados conflitos bélicos nacionais e regionais, com o excesso de consumo. A pobreza, a destruição do meio-ambiente, as guerras locais, o consumo superando a produção são conseqüências de um sistema que já se tornou intolerável, perigoso para a humanidade. Lettieri apontava ainda os efeitos destruidores da crise sobre a economia real, sobre o emprego, sobre os rendimentos das famílias, a perda de moradias, o abalo das empresas, a queda da qualidade de vida das pessoas.

A especulação financeira foi implacável, selvagem, cruel, dizia a ex-ministro italiano. Ela ignorou completamente as exigências do mundo produtivo, material, da economia real. Assim, em dezembro de 2007, somente os derivados contratados no mercado mundial chegavam a 600 trilhões de dólares, uma cifra superior ao PIB mundial, cinco vezes o PIB da Europa, trinta vezes o PIB do Mercosul. Seiscentos trilhões de dólares de fumaça, de capital vadio, à busca de ganhos rápidos, fáceis, produto de uma diabólica engenharia financeira, sem nenhuma referência na realidade econômica, na produção. Essa insanidade, argumentava o ex-ministro, deveria ter alertado governantes, economistas sensatos e a própria mídia, pois era mais que certo o advento de uma crise financeira global.

Mário Lettieri lembrava que, em fevereiro de 2004, quando se deu a quebra da Parmalat, ele era deputado e apresentou ao Parlamento italiano moção instando o governo a promover uma conferência internacional de chefes de Estado, para que fossem adotadas medidas que controlassem o jogo do mercado e contivessem as bolhas especulativas. A quebra da Parmalat, que custou à empresa mais de 14 bilhões de euros, fora antecedida e sucedida pela quebra da Enron, do Fundo LCTM, pela esfumação dos bonds argentinos. Enfim, dizia o economista, os sinais de que se aproximava uma fortíssima crise do sistema bancário-financeiro eram precisos. Uma crise que superava os circuitos das bolsas e tocava profundamente o mundo da produção, a vida real das pessoas, suas economias, seus empregos. E os governos nada fizeram para evitar o desastre. Na crise da Parmalat, indicava Lettieri, todos os elementos, que depois se tornariam clássicos na quebradeira norte-americana, já estavam presentes, como o pagamento de bônus abusivos aos executivos da empresa, a avaliação irresponsável das agências de risco e desatino do sistema bancário e dos especuladores. A insolvência de uma única empresa ou de um estado nacional, como a Argentina, já era suficiente para o estabelecimento de regras e restrições comuns no plano internacional. A Itália ou a Europa apenas não poderiam garantir esse controle. Ainda mais, registre-se, desde a era Reagan e o triunfo neocon nos Estados Unidos, a regra era o fim das regras, nada de regulações, nada de normas, especialmente regulações que disciplinassem o mercado bancário-financeiro.

Se, àquela época, nos anos finais da década de 90 e primeira metade dos anos 2000, os claros avisos do desastre foram desprezados, Lettieri acreditava na inevitabilidade de o mundo, agora, adotar e compartilhar medidas eficazes para enquadrar as operações financeiras. Operações que ultrapassam as fronteiras nacionais, que poluem a economia real, que empobrecem países e vidas e que, freqüentemente, violam os princípios da legalidade, recorrendo a paraísos fiscais, reciclando recursos provindos de atividades ilícitas. Com extrema facilidade –dada a ausência de limitações- as organizações criminosas deslocam seus capitais de um país para outro, de uma economia a outra, estabelecendo uma simbiose entre o crime e a especulação financeira. Ao mesmo tempo, ponderava o ex-ministro italiano, é necessário dar-se conta dos limites das atuais instituições internacionais, como o FMI, o Banco Mundial e a própria OMC. Lettieri detinha-se no papel do FMI, o patético papel do FMI, e propunha não apenas novas regras, para o mercado financeiro como também instituições internacionais renovadas, que atuassem a favor da estabilidade financeira, do crescimento econômico, do desenvolvimento. Da mesma forma, Mário Lettieri acreditava que soluções novas só teriam eficácia se houvesse mudança no comportamento dos Estados Unidos, de suas instituições financeiras e de seu governo. Ele lembrava que o presidente Obama, no espocar da crise, dissera que essa crise era a mais grave da vida norte-americana. Ora, dizia Lettieri, era de se esperar, então, que o mais desenvolvido dos países começasse a ter consciência que o seu déficit, que, nos últimos anos, saltara de cinco trilhões para dez trilhões de dólares, não poderia continuar sendo descarregado sobre a economia de outros países. Os Estados Nacionais, portanto, deveriam por limites, barreiras firmes ao financiamento selvagem e ao descontrole de suas contas. O crédito e a finança, dizia o economista, devem dar sustentação à economia real e não penalizá-la. O crédito, que sustenta e organiza a economia real, não pode ser sabotado, tumultuado pela especulação. No pós-guerra, relembrava Lettieri, quando tudo parecia possível, predominava a idéia do crescimento, da abolição do colonialismo, da superação da miséria e do subdesenvolvimento. A crise deveria empurrar os países, a humanidade à volta a esse espírito. Lettieri dizia que não colocava em questão o livre mercado, a necessidade de mais cultura de mercado. Mas, para ele, soava estranho que se reinventasse o papel do Estado. Pelo contrário, insistia, o caos financeiro, o desregramento especulativo, mostrava que era preciso mais Estado, maior intervenção pública. O ex-ministro de Romano Prodi revelava-se otimista, considerando inescapável que os países redefinissem os padrões para a atuação do mercado financeiro, estabelecendo limites bem claros para controlar os especuladores. No centro das novas escolhas internacionais não deverão estar os banqueiros e os financistas. E sim as pessoas, suas atividades, seus direitos, as suas necessidades e seu discernimento. Se assim fosse, julgava Mário Lettieri, seria possível acreditar no surgimento de um novo New Deal. Desgraçadamente, nem tudo se deu como Lettieri imaginava que aconteceria. As salvaguardas para impedir a orgia financeira não foram adotadas. Depois de um primeiro impulso de intervenções e nacionalizações, os governos dos Estados Unidos e da Comunidade Européia recuaram.

Não foi menos decepcionante a atuação do Brasil, da Rússia, da Índia e da China, o tal BRIC, para frear a jogatina financeira. No plano do Mercosul, também nenhuma tomada de posição coletiva para controlar o capital vadio. O pânico dos primeiros dias parece substituído pela inércia, pela conivência com os responsáveis pela quebradeira que já custou mais de vinte trilhões de dólares. A velho conselho lampedusian, de se mexer em alguma coisa para que tudo reste como está, parece ter se imposto. Por isso mesmo, os alertas de Mário Lettieri continuam tão atuais, candentes. Vamos ouvi-lo?

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