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  • Requião

Discurso – INDIFERENÇA DO GOVERNO E DOS POLÍTICOS PARA A CRISE AMEAÇA O BRASIL

Na primeira sessão depois da volta do recesso, dia 1º, subi a esta tribuna para falar das ameaças que espreitam e sitiam o país. Volto hoje ao tema, porque às vezes, ou quase sempre, repetir e repetir é o melhor recurso para ser ouvido. E gostaria que as senhoras e senhores senadores me ouvissem. A primeira grande ameaça que ronda o Brasil somos nós mesmos, os políticos. A nossa indiferença -ou a baixa percepção- da gravidade do momento potencializa, avoluma os riscos. Nós somos uma ameaça quando deixamos o barco da República desgovernar-se pelos descaminhos de uma política econômica inconsequente. Não interessa se somos base ou oposição. A nossa insensibilidade, a nossa apatia diante da valorização do câmbio e o aumento dos juros, por exemplos, têm consequências trágicas para o Brasil. Será que não compreendemos que o câmbio e os juros nos empurram para a desindustrialização, para o desequilíbrio do balanço de pagamentos, para a sangria das remesas de lucros e intensifica o perigo do desemprego? Portanto, a nossa abulia é a primeira ameaça ao país. A segunda grande ameaça é a redução sistemática dos investimentos públicos. O governo puxa o freio, na fiúza de que o investidor privado substitua-o. Esquece-se aqui uma lição elementar, primária: no capitalismo, é o investimento público que puxa o investimento privado, e não o contrário! À medida que o PAC deixou de cumprir sua missão de acelerar o crescimento, matou-se o investimento público. Qual, então, a esperança do governo para a retomada dos investimentos? As mal-afamadas Parcerias Público-Privadas, as PPPs. Mas, as duas tentativas recentes de licitar a conservação de rodovias fracassaram. Como mais uma vez soçobrou outro ensaio de se licitar essa fantasia, esse delírio chamado trem-bala. Com as ruas em transe, protestando também contra as tarifas escorchantes do pedágio, que empresário se arriscaria às PPPS de rodovias pedagiadas? O Governo não investe, as PPPs empacam, a iniciativa privada sente-se insegura….e as obras de infra-estrutura não saem do chão. A terceira grande ameaça é o despreparo do governo para fixar estratégia de enfrentamento da crise mundial, sobretudo a crise européia. As nossas reações são tópicas e limitadas. O governo tange a economia a golpes de desonerações fiscais. Só que as desonerações já esgotaram a capacidade de estimular o consumo e o investimento, e elas não têm qualquer outro efeito do que favorecer o lucro de empresas estrangeiras e a remessa desses lucros ao exterior. A espantosa enxurrada de dólares que, neste último ano, temos exportado sob a rubrica de lucros e juros, coincide com a exacerbação das desonerações. A quarta ameaça é o risco de uma crise cambial, a curto prazo. Toda vez que se fala em crise cambial, os que não acreditam nela, os otimistas e o governo sacam como argumento os 350 bilhões de dólares de nossas reservas. Contudo, mesmo um elevado nível de reservas não resiste o efeito combinado de déficit comercial; déficit em conta-corrente; remessas de lucros e juros crescentes ao exterior; redução dos investimentos externos; e a diminuição das exportações, tanto das manufaturas como dos produtos primários. Foi por causa disso, e não para combater a inflação, que nunca fugiu do controle, que o Banco Central voltou a aumentar os juros. Enfim, voltamos ao ciclo traiçoeiro de ter que alimentar a especulação externa, para atrair aplicações financeiras. Com isso, ingressamos no pior dos mundos ou seja, revalorizamos a nossa moeda, radicalizamos o processo de desindustrialização, e diminuímos a possibilidade de retomada das exportações, agravando o círculo vicioso da crise. Mas, dessas ameaças, acentuo uma que sobrepõe a todas, a ameaça representada pela crise dos países industrializados, sobretudo europeus, sobre a nossa economia. Na verdade, essa contaminação já começou e avança. Basta ver o desempenho de nossa balança comercial. E sem uma estratégia de enfrentamento da crise vamos ser levados de roldão, nós e nossos vizinhos e parceiros latino-americanos. Afinal, o que se arma e tolda o horizonte não é apenas uma marolinha. A crise na Europa e nos Estados Unidos não é o vale de um ciclo que acabará entrando em um processo de retomada por vias naturais, arrebatando-nos juntos para os céus. Antigamente, as crises cíclicas do capitalismo eram revertidas por políticas fiscais e monetárias expansivas. Hoje, o sistema resiste às políticas fiscais expansivas e políticas monetárias tornaram-se ineficazes. É a “armadilha da liquidez” de que falava Keynes: As empresas têm dinheiro abundante para investir, mas não investem porque não há demanda. Tão simples assim. As violentas políticas de contratação fiscal adotadas pelos países europeus, para salvar o seu sistema bancário, travaram a retomada do crescimento e espalharam a recessão e a depressão. Qual, então, a saída para a Europa do euro? A única saída é aumentar as exportações e o superávit comercial, para substituir a demanda interna contraída pelas políticas de austeridade. Aumentar as exportações para quem? Fazer superávit comercial a todo custo em cima de quem? Ora, ora… Em cima de nós! Em cima do Brasil e dos países latino-americanos. Mas o cerco amplia-se. Os Estados Unidos anunciaram a meta de dobrar as exportações a cada cinco anos. O Japão está com uma política cambial agressiva para aumentar as exportações. A China intensifica e reforça seu modelo exportador e de superávit comercial. Enfim, o nosso sistema comercial sofre ataques em todas as frentes. Com seus mercados retraídos, os países industrializados miram os mercados dos emergentes como salvação. E isso acontece em um momento em que, depois de 19 anos de superávit comercial, o Brasil passa a acumular déficits comerciais e déficits em conta corrente. E qual é a estratégia proposta ou sinalizada pelo governo brasileiro diante disso? Nenhuma! Nenhuma estratégia ao mesmo tempo em que os movimentos táticos de desonerações estiolam-se. É claro que a saída não podem ser acordos bilaterais de livre comércio com os países desenvolvidos. Seria o confronto de Davi sem a funda com Golias fortemente armado. A saída visível, e possível, é o aprofundamento da integração produtiva e econômica da América do Sul como eixo central para a retomada de nosso desenvolvimento. Apenas como bloco podemos nos defender do verdadeiro dumping comercial que se engatilha contra nós. Mais ainda: desta vez o declínio da indústria manufatureira, em toda a América do Sul, não será compensado pelo aumento das exportações de commodities, como ocorreu nos anos 2000 até a crise. Afinal, a China, o glutão insaciável de grãos, carnes e minérios da América do Sul, revela-se indisposta. Quer dizer: estamos no mesmo barco; em consequência, precisamos de uma estratégia comum para não afundar. Contudo, não chegaremos a um porto seguro sem a decidida liderança brasileira. Será que é tão difícil entender isso? Mas, do alto desta tribuna, lanço um olhar ao plenário, apuro os ouvidos para os sons e murmúrios da Esplanada dos Ministérios, espero com ansiedade algum movimento no Palácio do Planalto, desejo até mesmo que a oposição diga alguma coisa, algo um pouco mais criativo que as mesmices dos enganosos e marqueteiros “choques de gestão”…… e nada ouço, nada vejo, nada sinto. E esta Casa? Ora, diverte-se, distrai-se com a dita “pauta positiva”. E o meu partido, o PMDB? Bom, isso é assunto para um outro discurso.

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