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  • Requião

Discurso do Senador Requião sobre liberalismo brasileiro que é igual jabuticaba: só dá aqui

Hoje vou falar de jabuticaba, esta mirtácea nativa da Mata Atlântica brasileira. É que o golpe de Estado no Paraguai – a deposição do presidente Lugo não pode ser diminuída com eufemismos- me fez lembrar as jabuticabas. Como se sabe, algumas coisas só dão no Brasil. Diploma para jornalista, justiça eleitoral e jabuticaba, por exemplos. Daí que o jornalista Luís Nassif passou a denominar de “liberalismo de jabuticaba” o curioso liberalismo professado por nossas elites e propagado pela gloriosa e impávida mídia. Notadamente pelas tais Organizações Globo. Mas não só. A Folha e o Estadão são também useiros e vezeiros porta-vozes desse jabuticabismo. Com o golpe no Paraguai, esse liberalismo tão nosso, tão peculiar mais uma vez se manifestou com todo o esplendor….. de sua pobreza. Já que, segundo Marx, a história não se repete, a farsa do dia 25 de junho de 201em Assunção, em sua essência, pouco difere da farsa do dia 1º de abril de 1964, produzida exatamente neste plenário. Desta cadeira, declarou-se vaga a Presidência da República e empossou-se aquele que seria o sucessor “legal”do presidente declarado impedido. Enfim, tudo dentro da mais estrita legalidade, obedecidos todos os ritos constitucionais. Como no dia 25 de junho, em Assunção. Lá e cá, tínhamos um presidente populista, como dizem e como diziam os nossos pundonorosos liberais. Classificar um governante de populista é, desde sempre, o argumento de quem não tem votos, como observou Samuel Pinheiro Guimarães, tão acostumado aos golpes nestes tristes trópicos. E quem não tem votos está vigilante, eternamente vigilante para as oportunidades que se oferecem. Lá e cá, dizem nossos udenistas, os presidentes desafiaram as Forças Armadas. Lugo, permitindo uma manifestação popular em um quartel; Goulart participando de ato político de soldados, cabos e sargentos. Lá e cá, os presidentes estimularam a agitação no campo, Lugo com os sem-terra guaranis, os carperos; Goulart com as Ligas Camponesas de Julião. Lá e cá, os presidentes imaginaram um revolucionário programa de industrialização nacional. Lugo, usando a energia de Itaipu; Goulart construindo um conjunto de hidrelétricas. Lugo, contando com o apoio de uns poucos empresários nacionais; Goulart com o apoio de empresários com o descortino de um Armando Monteiro, de um José Ermírio de Moraes, de um Mário Wallace Simonsen, de um Celso Rocha, de um Baby Bocaiúva, de Rubem Paiva, Horácio Coimbra, Walter Moreira Salles, Samuel Wainer. Brasileiros destemidos que não se deixaram impressionar pelo discurso rastaquera, medíocre do anticomunismo, dos pregadores de sempre da lei e da ordem, dos crocitadores do ódio, do entreguismo e do atraso. Lá e cá, a imprensa transformou-se em partido político, liderando o golpe; no Paraguai, o ABC Collor e quetais; no Brasil, o Globo, o Estadão, o Jornal do Brasil, o Correio da Manhã e seus abomináveis editoriais que gritavam “Basta” e “Fora”, conclamando os militares à deposição do presidente Goulart. Lá e cá, a bem postada burguesia e seus porta-vozes mediáticos empinavam o nariz para a “incompetência” dos presidentes. No caso brasileiro, essa difamação “grudou” de tal forma que até hoje Jango é visto com reservas, não apenas à direita, como seria natural, mas também à esquerda. Esse paralelismo, essas semelhanças não são ao acaso. Os mesmos elementos, as mesmas induções vamos encontrar nos golpes no Chile, na Argentina, no Uruguai, na Bolívia, no Perú e, mais recentemente na Venezuela e em Honduras. A crônica dessas golpes, é, monotonamente, a mesma. Os nossos liberais-jabuticaba de hoje são descendentes diretos dos liberais do Império, dos liberais da República Velha, dos liberais de 32, dos liberais da República do Galeão, de Aragarças, de Jacareacanga, do golpe de 64. Uma das figuras emblemáticas de nosso liberalismo, por exemplo, é Joaquim Nabuco. Especialmente o Nabuco de “O Abolicionismo”. Pois bem, seu liberalismo, sua dedicação à causa da extinção da escravatura não o impede de fazer uma dura reprimenda a José Veríssimo, quando este, em artigo publicado logo depois da morte de Machado de Assis, refere-se ao nosso maior escritor como “mestiço”, “mulato”. Nabuco enfurece-se. Diz ele em carta a Veríssimo: “(…) Eu não teria chamado o Machado mulato e penso que nada lhe doeria mais que essa síntese. (….) Machado para mim era um branco, e creio que por tal se tomava; quando houvesse sangue estranho, isso em nada afetava a sua perfeita caracterização caucásica. Eu pelo menos só vi nele o grego. O nosso pobre amigo, tão sensível, preferiria o esquecimento à glória com a devassa sobre suas origens”. E olha que Veríssimo diz que Machado de Assis foi gênio, apesar de mulato. Mas nem isso Nabuco aceita. Ele exige a exclusão de qualquer referência às origens raciais do fundador da Academia Brasileira de Letras. Ainda há quem se escandalize quando a Caixa Econômica Federal põe no ar uma propaganda com Machado de Assis retinindo de branco. Nada é gratuito, nada é ao acaso. Estamos fortemente atados à nossa formação, à nossa história, às jabuticabas de nossos quintais. O que são as nossas instituições e as nossas comunicações se não a mais acabada, a mais miserável, vexatória expressão do conservadorismo, do racismo, do preconceito? Não é à toa que fomos o último país a libertar os negros da escravidão. Não é à toa que a abolição da escravatura tenha se arrastado no Congresso imperial por tanto tempo e que ela tenha vindo aos soluços, aos trancos e barrancos, a cada etapa fazendo supostas concessões, verdadeiras fraudes ao objetivo final. Nunca é demais lembrar que até mesmo alguns dos defensores do fim da escravatura, que se diziam doutrinariamente liberais, queriam que os proprietários de negros fossem indenizados, a pretexto de que os contratos deveriam ser honrados, que os proprietários de negros não poderiam ser privados assim sem mais ou menos de suas posses. Estão aí os avós de nossos liberais de hoje, que também desfraldam o princípio do pacta sunt servanda ainda que os contratos sejam nocivos aos interesses nacionais. Oh Deus! À medida que a escravidão não foi combatida na imprensa, nos púlpitos, na academia não tivemos no país uma cultura antiescravagista. Não se disseminou no país um sentimento de solidariedade aos negros, um sentimento de horror, de repulsa à barbárie escravocrata. Pelo contrário, havia uma convivência com aquela bestialidade, com aquela ignomínia como se tratasse da coisa mais normal sob a face da terra. A omissão da Igreja, neste Brasil à época cem por cento católico, foi fundamental para que não houvesse entre nós essa cultura antiescravagista que resultasse, na sequência, em uma cultura antiracista, uma cultura humanista que inculcasse em nossas elites sentimentos civilizados. Débeis que fossem esses sentimentos, já seria alguma coisa. Sobre o papel da Igreja na luta contra a escravatura dos negros, diz Joaquim Nabuco, em “O Abolicionismo” : – Em outros países, a propaganda da emancipação foi um movimento religioso, pregado do púlpito, sustentando com fervor pelas diferentes igrejas e comunhões religiosas. Entre nós, o movimento abolicionista nada deve, infelizmente, à Igreja do Estado; pelo contrário, a posse de homens e mulheres pelos conventos e por todo o clero secular desmoralizou inteiramente o sentimento religioso de senhores e escravos. No sacerdote, estes não viam senão um homem que os podia comprar, e aqueles a última pessoa que se lembraria de acusá-los. A deserção, pelo nosso clero, do posto que o Evangelho lhe marcou, foi a mais vergonhosa possível: ninguém o viu tomar a parte dos escravos, fazer uso da religião para suavizar-lhes o cativeiro, e para dizer a verdade moral aos senhores. Nenhum padre tentou, nunca, impedir um leilão de escravos, nem condenou o regime religioso das senzalas. Conclui Nabuco : “A Igreja Católica, apesar do seu imenso poderio em um país ainda em grande parte fanatizado por ela, nunca elevou no Brasil a voz em favor da emancipação”. Com essa omissão da Igreja, Nabuco antevê uma dificílima tarefa pós libertação dos escravos. Dizia ele: “Essa obra -de reparação, vergonha ou arrependimento, como a queiram chamar – da emancipação dos atuais escravos e seus filhos é apenas a tarefa imediata do abolicionismo. Além dessa, há outra maior, a do futuro: a de apagar todos os efeitos de um regime que, há três séculos, é uma escola de desmoralização e inércia, de servilismo e irresponsabilidade para a casta dos senhores (…..)”. E completa: – Depois que os últimos escravos houverem sido arrancados ao poder sinistro que representa para a raça negra a maldição da cor, será ainda preciso desbastar, por meio de uma educação viril e séria, a lenta estratificação de trezentos anos de cativeiro, isto é, de despotismo, superstição e ignorância”. Desgraçadamente isso não aconteceu, e o próprio Nabuco, como vimos, resvala no preconceito, é traído pela formação da elite liberal brasileira. Quer dizer, quando os nossos liberais abraçam uma causa humanitária, civilizadora fazem questão de distanciar-se da cozinha. Se acaso, na juventude, estudantes, tenham agitado a academia, depois de formados, os doutorzinhos incorporam rapidamente os senhorzinhos. E a mídia? Como se comportavam os nossos peculiaríssimos liberais que eram donos de meios de comunicação, históricamente? Maltratando a verdade, como é do feitio. Não há, por exemplo, diferença substancial entre o tratamento que a Rede Globo deu àquele comício pelas diretas, em São Paulo, em 1984, que ela transformou em um happening em comemoração ao aniversário da cidade, e o tratamento que a nossa imprensa deu à rebelião de Canudos, transformada por ela em um movimento monarquista. Da mesma forma que a Guerra do Contestado, nas fronteiras do Paraná e Santa Catarina, também foi desclassificado como uma rebelião de fanáticos anti-republicanos. Como sempre, o propósito era esconder o povo, descaracterizar o movimento, desvesti-lo de seu significado, desmoralizá-lo. Eis aí exemplos de coberturas “isentas”. Eis aí o que os liberais mediáticos, de antanho e de agora, consideram “liberdade de expressão”. Da mesma forma, a Revolução Federalista de 1894 foi apequenada pelos nossos liberais como “reação monarquista”. Às vezes tenho a tentação de ver no movimento liderado por Silveira Martins como o último cavalo liberal que passou encilhado pela história brasileira e que não foi montado. Voltando ao tema da escravatura. Tirante os jornais que se dedicavam à propaganda contra a escravidão, cuja razão de ser era essa, os demais veículos defendiam o ponto de vista dos escravocratas e também queriam ver os donos de negros indenizados pela perda da propriedade. Quando os movimentos liberais radicalizam-se, como os casos da Revolução Pernambucana, 1817; Confederação do Equador, 1824; Balaiada, l838-1841; Sabinada, 1837-1838; Cabanagem, 1835-1840; Farroupilha, 1835-1845, os nossos liberais de fancaria horrorizam-se, porque todos esses movimentos tinham em comum a participação popular, a luta contra a escravatura, a criação de uma República aos moldes da nascida da Revolução Francesa. Enfim, modernização das instituições e das relações econômicas e sociais. No entanto, essa vertente liberal que tem em Frei Caneca sua grande expressão, é sufocada e fechamos o século XIX melancolicamente. Quando nas primeiras décadas do século XX, a Coluna Prestes e o Movimento Tenentista expõem as mazelas nacionais e galvanizam a opinião pública por mudanças, o sapientíssimo liberal à moda brasileira, o mineiro Antônio Carlos de Andrada,com o mesmo senso de classe do personagem de Lampeduza, concita: “Façamos a revolução antes que a façam”. Com a ascensão de Vargas, a primeira ruptura no pacto de classes desde 1500, os nossos liberais-jabuticaba iniciam uma longa, teimosa, implacável conspiração que vai culminar com o golpe militar de 64. Com que constrangimento, com que vergonha, embaraço e desconforto moral vimos o proeminente quinteto da banda de música, mais o crocitante jornalista, aderirem à deposição do presidente, à cassação de mandatos eletivos, à cassação de ministros do Supremo, a prisões em massa, ao fechamento de sindicatos, ao empastelamento de jornais, à censura. E, na sequência, à tortura e aos assassinatos de opositores políticos. Fez mal ao país, faz mal ao país a ausência de um pensamento autenticamente liberal. Não esse liberalismo de araque, que fez e faz de golpes e tentativas de golpes o seu ideário político. Não esse liberalismo midiático com longa, ancestral tradição de gritar “Basta!”, “Chega!”, “Fora!” a qualquer tentativa, por tímida que seja ou fosse, de mudar alguma coisa neste país. Se rareiam os liberais, abundam, transbordam os neoliberais, que se descolam tanto do liberalismo clássico como do liberalismo social ou moderno. Distanciam-se tanto de Locke, Adam Smith, David Ricardo, quanto de Voltaire, Montesquieu, Tocqueville, Jean-Batist Colbert, Thomas Paine, Henry Carey, Friedrich List ou Alexander Hamilton. Ao invés desses, incensam a mediocridade dos Fukuymas e assemelhados. Entronizam como suas referências intelectuais e morais os Reagan, os Bush, as Tatcher, os Menen, os Salinas. Confesso que, às vezes, deleito-me com os prodigiosos comentários políticos, mas especialmente as análises econômicas dessa gente. Entretém-me o contorcionismo dos comentadores, as incríveis piruetas, as espantosas parábolas, as fantásticas hipérboles que executam para criticar cada uma das medidas econômicas do governo. Lembram-se da redução da taxa Selic, ano passado? Os nossos liberais-jabuticaba passaram a gritar que era uma irresponsabilidade, que a inflação explodiria. Menos juros, mais consumo; mais consumo, mais inflação, pregavam com a perspicácia dos zotes. E cada vez que o governo aumentava u, tantinho que fosse os gastos sociais, lá vinha a paulada na “gastança”. Quantos discursos ouvimos neste plenário sobre os gastos públicos, como se fosse crime, gravíssimo delito, aumentar os investimentos em saneamento, educação, saúde, segurança e infra-estrtuutra. Todos os gastos do governo, indistintamente, é “gastança” para os nossos liberais-jabuticaba. E como à redução da Selic não sucedeu o cataclismo previsto, deu tilt em nossos comentadores. E eles ficaram um termpo sem saber o que dizer, lembra Luís Nassif. E hoje, diz o jornalista, o discurso das Organizações Globo e assemelhadas é cpntra a redução do custo do financiamento, medida considerada temerária, porque pode levar o consumidor a um “endividamento irresponsável”. Enfim, mais u ma vez revelam-se aterrorizados diante do aumento do consumo. Fico pensando, tal e qual o jornalista, que raio de liberalismo é esse que quer tutelar o consumidor, pajeá-lo, roubar-lhe o livre arbítrio, essas coisas tão caras aos mercadistas? Ou o horror deles é apenas o horror de ver os pobres consumindo? De minha parte, mais de uma vez, revelei aqui preocupação quanto aos limites do endividamento dos brasileiros. Temia que se reproduzisse no país o fenômeno da inadimplência que levou à quebra dos Estados Unidos, em 2008. As eu não sou um liberal. Para os liberais, o discurso da tutela do consumidor é uma aberração, uma das mais graves heresias contra o deus mercado. Particularismo o nosso liberalismo. Tanto na pó,lítica como na economia Como as jabuticabas.

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