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  • Requião

Discurso do Senador Requião sobre integração do Mercosul (Tucumán)

Nas últimas 2 semanas, no Brasil, só se fala em manifestações e Copa das Confederações. A seleção brasileira, até agora, surpreendeu com um bom desempenho depois de anos de instabilidade de sua performance. Já contando com a sorte ao superar os sempre guerreiros uruguaios, acho que isso se deve à recente volta de Felipão à seleção, um técnico duro, exigente, que sabe valer sua autoridade e sua responsabilidade, mas que também sabe ouvir outras opiniões e garantir um respeito mútuo e a boa convivência, que sabe destacar os talentos individuais e espírito de equipe entre os jogadores. Mas que antes de tudo sabe incutir nos jogadores e torcida a esperança da realização de um grande e velho sonho, vencer uma copa do mundo em nossa própria terra.

Antes dele voltar à seleção brasileira, não tinha esperanças de vencer nem Espanha, nem a ótima seleção Argentina em 2014. Hoje tenho esperanças. Reconheço-o como um líder talentoso na sua atividade, ainda que possa ter algumas opiniões diferentes na minha na política.

E é de política que eu quero falar. Somente grandes líderes podem conduzir uma nação a buscar grandes objetivos, grandes projetos, grandes sonhos. Sem eles, a sociedade se perde na mediocriade, na mesmice e na apatia.

Mediocridade, mesmice e apatia são vistas pelos neoliberais como sua tão desejada estabilidade. Mas na prática é apenas a pax romana do mundo moderno, a “paz de cemitério”, o Consenso de Washigton sempre renovado pela mídia cartelizada e globalizada de nossos países da periferia.

Mas essa é uma paz verdadeira? uma estabilidade verdadeira?

Como diz o grupo de música da periferia carioca, o Rappa, “Paz sem voz não é paz, é medo”.

Nos últimos 10 anos, vivenciamos no Brasil o mais amplo programa de assistência social já implatando no nosso continente, o Bolsa Família. Programa esse que está sendo ampliando e aprofundado por nossa estimada Presidenta Dilma Roussef, com os programas Brasil Sem Miséria e Brasil Carinhoso.

Todavia, no Brasil, muita coisa não mudou, especialmente a falta de voz do povo. A Argentina teve mais coragem e aprovou a ley de medios, que é uma chance da grande mídia cartelizada não ser a única voz no país. Infelizmente o Brasil ainda está longe disso.

Mas outras coisas também não mudaram. A distribuição de renda ainda é péssima, a segurança pública ainda é péssima, o transporte público ainda é péssimo, a telefonia é péssima, assim como todos os serviços públicos privatizados. A vida nas periferias da grandes cidades ainda é muito díficil, insegura e sofrida.

Porém, essa realidade parece encoberta no Brasil. A grande mídia não noticiava, a não ser quando acontecia um crime ou um acidente.

As classes políticas estavam entretidas na já quase pre-histórica disputa entre o PSDB e o PT de São Paulo, na disputa sobre quem são os guardiões da pretensa estabilidade econômica, quem é o partido mais corrupto, quem são os autores dos dos programas sociais, quem merece o prêmio “o Gerente do ano”.

Parece que ninguém perguntou ao povo se ele está interessado nessas disputas.

De repende o povo se levantou de forma surpreendente e assustadora para a grande mídia e para a classe política. Teve dia que se contou quase 1 milhão de pessoas na rua em todo o país. Teve um dia que teve 300 mil pessoas no Rio de Janeiro.

De repente a classe política e a imprensa viram que o povo quer melhores serviços públicos.

De repente viram que as concessionárias privadas de serviços públicos prestam um péssimo serviço.

De repente, viram que o povo e os jovens querem muito mais do que o pouco que o governo tem conseguido dar no regime da Pax Romana moderna, o Consenso de Washigton.

Os jovens de hoje, como os do passado, querem um grande sonho, um grande projeto, uma grande utopia. Querem igualdade, querem liberdade, querem fraternidade.

Os partidos brasileiros modernos desistiram das utopias, das ideologias progressistas autênticas, de todos os grandes projetos.

Então os jovens foram buscar o único partido que sempre os aceitou, o bom e velho Partido da Crise.

Foi o Partido da Crise que deu guarida aos sonhos e às utopias do General San Martin e do General Simon Bolívar. Foi o Partido da Crise que abrigou Zapata, Pancho Villa, e Cárdenas no México e José Martí em Cuba. O Partido da Crise foi esteio para Getúlio Vargas no Brasil e Juan Peron aqui na Argentina. Foi também o partido de Ernesto Che Guevara e Fidel. Foi o partido de Salvador Allende, no Chile.

Mais recentemente, o Partido da Crise ajudou a eleger Lula, os Kirchner, Chavéz, Evo Morales, Rafael Correa e Mujica.

Sem o Partido da Crise e sem os heróis que se filiaram nele, não sabemos o que seria da América Latina, porque quase tudo o que construímos, foi construído sobre as bases instaladas por esses heróis. A indústria, as reformas educacionais, as grandes obras de infra-estrutura, os partidos revolucionários ou populares, as afirmações de soberania e os projetos de União Latinoamericana.

Porém, é triste que nossos países precisem de graves crises para assumir as rédeas do próprio destino e progredir. É claro que essa não é a melhor solução. Precisamos de progresso contínuo por gerações para podermos nos tornar realmente desenvolvidos, donos do nosso destino e livres de graves crises recorrentes.

Infelizmente na nossa história, toda vez que estávamos para colher os frutos de nosso progresso, nossas elites dirigentes se seduziam pelo canto das sereia dos países ricos do Norte e se chafurdavam no neoliberalismo, no consumismo de produtos importados e se corrompiam no luxo, nos elogios e nos mimos vindos no Norte.

É incrível como são poderosos esses elogios para nossas elites. É incrível como é patética e infantil a linguagem desses elogios. Os grande jornais não se coram em cobrar de nossos presidentes a realização do “dever de casa” ditado pelo Consenso de Washigton. Repito: “o dever de casa”!

Querem classificar nossos governantes como crianças obedientes ou não obedientes, que fazem bem feito ou não o “dever de casa”.

Se tudo vai bem, todos os partidos tradionais acabam se sucumbindo ao canto de sereia do “professorzinho” do Norte e se esforçam para fazer o “dever de casa”.

Mas se algo vai mal, não tarda a aparecer o Partido da Crise para esculhambar o “professorzinho”, jogar o “dever de casa” pela janela e dizer que a América Latina é dona do próprio nariz.

No Brasil, em 15 dias, milhões de jovens já se filiaram.

A paz de cemitério e a pax romana moderna, o Consenso de Washigton, não tem mais como se sustentarem no Brasil. Os jovens querem sonhar com serviços públicos de qualidade e vão cobrar seus sonhos. Esses sonhos já não cabem mais nos Bezerros de Ouro do Consenso do Washigton brasileiro: a meta de déficit primário e o câmbio flutuante que na bonança só flutua para um lado, o lado da valorização do real que estava nos conduzindo a uma maléfica desindustrialização.

Os jovens não querem mais a “paz sem voz”, “a paz do medo”. Querem paz com voz, paz sem medo, ainda que isso custe a paz da “mediocracia”, dos banqueiros e da grande mídia brasileira. A falsa estabilidade neoliberal virou instabilidade política verdadeira.

As manifestações populares são sempre bem vindas. Mas a instabilidade política requer cuidados. Na crise, surgem também novos oportunistas, golpistas e usurpadores de todo o tipo. O Partido da Crise não aceita elogios maliciosos do Norte, não aceita que estamos vivendo uma “Primavera Brasileira”, primeiro porque aqui no Hemisfério Sul não é primavera, é outono. Segundo porque a referência, a Primavera Árabe, foi um banho de sangue e até agora parece não ter mudado quase nada nesses países. Infelizmente.

Não queremos sangue, não queremos mortes, não queremos vandalismo, não queremos guerra civil. Queremos parar de fazer o “dever de casa” do Consenso de Washington e sermos ouvidos, e ouvir a nós mesmos, ouvir nosso nosso sonho latino, índio, negro e mestiço.

O governo Dilma tem meu total apoio ao perceber que precisa repensar nossos projetos, mudar o rumo e trazer os movimentos sociais para dialogar e construir juntos um novo futuro, um ambicioso projeto que fuja dessa mesmice.

Já que paramos para pensar o futuro, temos que nos voltar para o grande projeto de todos os irmãos da América Latina e da América do Sul.

E nosso projeto é a União, é a Integração de nossos povos.

Integração é a nossa única salvação.

A integração é a garantia de apoio mútuo, nas crises ou na prosperidade onde a elite busca se perder no canto de seria do Norte.

A integração é a garantia que nos ajuda a não esquecer que temos um projeto comum, que temos história comum, que temos heróis comuns, que temos desafios comuns, que não temos que seguir o mesmo “dever de casa” imposto de fora, que temos soluções próprias comuns e que somos do mesmo Partido da Crise quando a coisa aperta.

O Partido da Crise é generoso. Finda a crise, cede o espaço para que os outros partidos assumam as rédeas de nossos países e ainda pede que não seja nunca mais chamado a atuar. Porém, ele afirma que – para que seja não mais uma vez chamado a socorrer – seus ensinamentos não sejam esquecidos.

Seus ensinamementos são:

Não há estabilidade sem igualidade. Não há soberania e autonomia econômica sem industrialização. Portanto, também não há desenvolvimento sustentável sem industrialização.

Porém, não há industrialização sem União Regional, porque sozinhos somos pequenos e fracos demais nos industrializarmos. Assim, temos que nos unir, nos integrar. Unida, NOSSA América tem um grande mercado comum onde podem prosperar nossas próprias indústrias, nossa própria tecnologia, nosso próprio saber.

O Mercosul é a ponta de lança desse projeto. Por mais que possa ter sofrido altos e baixos e mesmo “amnésias neoliberais coletivas” em nossos países individualmente, o Mercosul como unidade não se esquece dos princípios de nossos heróis, pois sua essência é a própria integração. Dessa forma, não pode deixar de ser manter fiel a nossas tradições e aos ensinamentos dos heróis do Partido Crise. O Mercosul zela pela democracia, pelos direitos humanos, e pela industrialização em cada um de nossos países graças à União Alfandegária com tarifas externas comuns maiores do que a média do resto do continente.

O Mercosul e seu irmão maior, a Unasul, defenderam a democracia quando essa foi ameaçada no continente. Individualmente é muito mais difícil a nossos países resistir ao golpismo recorrente que nos aflige.

Infelizmente, fazer o “dever de casa” do consenso de Washington prevaleceu na política econômica brasileira nos últimos 30 anos.

No Brasil, o “sagrado” tripé: superávit primário, meta de inflação e câmbio flututante valorizou nosso câmbio e destruiu boa parte de nossa indústria.

O Brasil aprofundou o processo de desindustrialização. Em 1985 a indústria de transformação correspondia a 35% do nosso PIB e 70% das nossas exportações. Hoje tem apenas 13% do PIB e 34% das exportações. Em 1980, o parque industrial brasileiro era maior do que o parque industrial da China, Coréia do Sul, Malásia e Tailândia somados. Hoje a produção industrial chinesa de 15 dias é maior do que a produção brasileira de um ano inteiro.

Especialmente a partir de 2007, com a super valorização do real, e depois com a crise internacional, os países desenvolvidos e asiáticos nos inundaram com produtos que não tem mais mercado nos EUA e na Europa. Estamos sofrendo dumping generalizado e perdendo nossa indústria.

Esse problema sofre toda a América Latina.

Mas seria muito pior, não fosse o Mercosul. Entre 2010 e 2013, o Mercosul comprou 30,4% das exportações brasileiras de manufaturados, a América do Sul comprou 42% e a América Latina comprou 50%.

Sabemos que para indústria argentina, uruguaia e paraguaia essa importância é ainda maior.

Na última terça feira, dia 25 de junho de 2013, em Buenos Aires, na comemoração da Casa Pátria Grande Néstor Kirchner, o chefe do Gabinete de Ministros, Juan Manuel Abal Medina, defendeu a integração regional, dizendo que também para “a Argentina não existe um destino fora da América Latina”.

Devo lembrar, que Néstor Kirchner, em apenas seis meses à frente da secretaria geral da Unasul, com grande espírito de entrega conseguiu dar um enorme impulso à integração regional. Segundo Medina, Néstor “entregou a vida nesse empenho”.

A indústria brasileira seria ainda menor sem o Mercosul.

China compra apenas 2% das exportações industriais brasileiras, os EUA compra só 13% e a União Européia 19%. Essas superpotências juntas compram o equivalente ao que compra o Mercosul. Mas muito menos do que os 42% comprados pela América do Sul e os 50% comprados pela América Latina.

Nas superpotências, os mercados são fechados por barreiras protecionistas e maior avanço tecnológico aos produtos industriais da América Latina.

Como podemos ver, a Integração em um Mercado Comum do Sul garante a nossas ainda frágeis indústrias o acesso a um conjunto de consumidores muito maior. Garante também que elas não serão atingidas em sua própria casa por uma avalanche de produtores supercompetitivos da Ásia, Europa e EUA que precisam desencalhar a qualquer preço suas produções que já não encontram mais mercados em razão da crise internacional que ceifa empregos, salários, direitos e esperança na Europa e outros lugares.

Mas antes desse retrocesso espetacular, mesmo a poderosa Europa buscou se fortalecer no projeto de integração, porque percebeu que mesmos suas grandes potências não eram páreos para as superpotências que se formaram depois da segunda guerra.

Nós latinoamericanos, muito mais fracos, já havíamos percebido isso um século pela pena de Bolívar.

Os europeus, porém, fizeram sua integração muito mais rápida e profundamente. Com excelentes resultados, ao menos até a invenção da Merkel e da Troika. Mas tanto lá quanto aqui, não há alternativa de progresso fora da integração.

Entretanto, aqui temos que enfrentar muito mais sabotagem. Primeiro nossa imprensa entreguista insiste diariamente que devemos abandonar o Mercosul e partir cada um de nossos países individualmente para acordos bilaterais com as grandes potências. Querem que as galinhas façam sozinhas um acordo bilateral com a raposa, o lobo e o leão. Sabemos que nossos países possuem muita riquezas naturais, mas haja carne nessa galinha!

Se não bastasse a cantilena dos acordos bilaterais agora inventaram a tal da Aliança do Pacífico. É evidente que essa Aliança do Pacífico é apenas uma tentativa de impedir a expansão do Mercosul. Mas não é apenas isso, é também uma tentativa de reeditar a ALCA, por partes, como diria Jack o estripador.

Os dados econômicos mostram que os países andinos tem muito mais a ganhar em aliança com o Mercosul do que com o México e os EUA. Tanto o México quanto os EUA tem baixas tarifas para importação de bens industriais. Assim que preferência os países andinos podem obter com isso? O que eles ganham?

Já a Aliança com o Mercosul é muito diferente. A agricultura do Mercosul é altamente complementar à agricultura andina. Já a agricultura mexicana é muito similar à agricultura andina. Ou seja, na agricultura faz muito mais sentido um acordo com o Mercosul do que com o México. O Mercosul é importador de frutas e legumes de clima temperado, que os países andinos e México exportam em quantidade. Os países andinos são grandes exportadores de vinho, que o Mercosul importa em grandes quantidades. O Mercosul é importador de pescado, e os países andinos são grandes exportadores. O Mercosul é grande exportador de grãos e carnes vermelha e de frango que os andinos importam.

O Mercosul é também uma grande fonte de turistas para os países andinos, incomparavelmente maior do que o México. Portanto, faz muito mais sentido o acordo de dispensa de visto com o Mercosul do que com o México.

Os países do Mercosul possuem uma das mais altas tarifas médias a importação de manufaturas, portanto, ao oferecer preferência aos manufaturados dos países andinos, estaria oferecendo preferências reais para acesso a um grande mercado. Já o México, em razão das baixas tarifas de importações industriais, nada a oferecer à indústria dos países andinos.

Além disso, a economia do Mercosul é quase 3 vezes a economia mexicana.

Ainda assim os países andinos preferiram se unir ao México a unir aos seus vizinhos mais próximos.

Não dá para entender. Ao menos de um ponto de vista racional. Ao menos se consideraramos o interesse nacional dos países andinos.

Mas sempre soubemos que não era fácil. A luta da América Latina por sua soberania, a luta para tirar seu povo da pobreza sempre foi muito dura. E esse é apenas mais um desafio que iremos superar juntos no caminho para nosso grande sonho bolivariano de uma América Latina, unida, soberana, igualitária e livre.

Esse é o grande sonho que os milhões de jovens e adultos estão buscando nas ruas do Brasil neste momento e que sempre buscaram todos nossos antepassados latinoamericanos. O líder que hastear essa bandeira, tocará no fundo os corações de todos nosso povos que redescobrirão dentro de si mesmos o destino que tanto buscam nas ruas e nas redes.

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