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  • Requião

Ave, Padre Cícero, santo de um novo Brasil

cicero

    Assim, mais de um século depois da controversa decisão que suspendeu Padre Cícero de sua ordenação, o santo nordestino e o mais legítimo dos santos brasileiros está reconciliado com a Igreja Católica.

   Foi preciso que à testa da Igreja tivéssemos um papa profundamente identificado com a fé e os sentimentos populares para que um santo -feito santo pelo povo- pudesse ser reconhecido.

   Diz um trecho da carta do Vaticano:

   -É inegável que o Padre Cícero Romão Batista, no arco de sua existência, viveu uma fé simples, em sintonia com o seu povo e, por isso mesmo, desde o início, foi compreendido e amado por este mesmo povo “.

    Roma engrandece “o intenso amor do Padim Ciço pelos mais pobres” e afirma que ele foi um instrumento escolhido por Deus para cuidar de seu povo.

     Diz ainda o documento que reconcilia Padre Cícero com a fé católica:

      – No momento em que a Igreja inteira é convidada pelo papa Francisco a uma atitude de abertura às periferias existenciais, a atitude do padre Cícero em acolher a todos, especialmente aos pobres e sofredores, aconselhando-os e abençoando-os, constitui sem dúvida um sinal importante e atual”.

     Como vemos, mais de um século depois que o povo o entronizou como santo, a Igreja o reconhece.

      Para os que amam o Brasil, para os que não perderam o sentimento de nacionalidade, para os que não romperam os laços com o nosso povo, com os trabalhadores, com a gente simples e valorosa de nossas periferias, com os que vivem e sobrevivem à margem do grande capital, a decisão do papa Francisco de repor o padre Cícero no panteão dos heróis nacionais do Brasil é uma grande notícia.

    Nenhum outro dos santos brasileiros, reconhecidos ou não pela Igreja, é tão entranhadamente, radicalmente brasileiro quanto o Padim Ciço.

      Este sertanejo curtido pela inclemência da natureza, produto das contradições de uma sociedade em ebulição, solidário ao seu povo, desassombrado na defesa de sua gente; este homem de fé, mesmo que destituído das ordens sacerdotais, ainda que no ostracismo, abandonado e execrado pela hierarquia e pelos bem- nascidos, este homem encarna a resistência do nosso povo às dificuldades da vida. A resistência e o triunfo.

   Logo, Padre Cicero não é um santo apenas do Nordeste, dos sertanejos. É um santo de todo o povo brasileiro, porque resume e exprime o nosso povo. O povo abandonado, empobrecido, marginalizado, explorado que teve no Padim o seu protetor.

    As nossas elites, sempre de costas para os sentimentos de nosso povo, sempre de costas para tudo o que seja genuinamente brasileiro, as nossas elites sempre torceram os seus delicados e sensíveis narizes para o culto popular ao Padre Cícero. Aceitam-no como folclore, como curiosidade, uma idiossincrasia, despindo-o de suas características de apóstolo dos pobres.

   A própria Igreja brasileira, à medida que expressão de nossas elites, também torce o nariz para o santo popular. Não por causa de seus supostos desvios doutrinários. E sim por suas reconhecidas vinculações com os humilhados e ofendidos de nossa sociedade.

   Não acredito que a decisão do papa Francisco de reconciliar Padre Cícero com a Igreja fará com que as nossas elites e a hierarquia o aceite e o incorpore ao panteão dos santos e dos heróis brasileiros.

    As nossas elites, aferradas aos interesses do capital financeiro, do capital multinacional, que devotam imenso desprezo para tudo o que seja nacional, que sabem apenas conjugar os verbos privatizar, cortar, monopolizar, arrochar não apreciaria um santo nordestino, sertanejo, protetor dos pobres e dos oprimidos.

   Não é neste altar que as nossas elites predadoras, sanguessugas, mesquinhas costumam rezar.

   Ave, Padre Cícero, santo de um novo Brasil. O Brasil para os nossos, solidário, fraterno, bom para todos.

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